Dossiê: PlayStation 2
04/03/2010 19:12 - Por Rodrigo Guerra
10.5 milhões de transistores no processador principal. 32 MB de memória RAM. Três modelos. 140 milhões de consoles vendidos no mundo todo. Dez anos na ativa. O PlayStation 2 completa uma década de existência, o que, no mundo da tecnologia, é uma eternidade. Graças a ele, a sexta geração dos videogames continua viva – mesmo que respirando por aparelhos. Esse dossiê vai mostrar como a Sony o criou, os pontos fortes, os baixos e o que o futuro o guarda.
Como tudo começou Em março de 1999 a Sony vinha tendo uma boa resposta com o seu primeiro videogame, o PlayStation, que trilhava o caminho para vender mais de 60 milhões de unidades. Mas o console já mostrava sinais de desgaste e a Sega, sua principal concorrente, vinha crescendo com a expectativa de seu novo console, o DreamCast.
A Sony tinha que dar uma resposta – e ela tinha que ser rápida. Ken Kutaragi, o “pai do PlayStation” tinha em suas mãos a necessidade de criar um videogame mais potente e mais poderoso que o rival. No dia 02 de março, o console foi anunciado e diziam os especialistas da época que ele era capaz de fazer gráficos como os vistos no filme Toy Story.
A expectativa era alta e o mercado de videogames estava em franca ascensão. “Eu acredito que a próxima geração do PlayStation será um dos pilares dos negócios da Sony”, disse o então presidente da companhia, Nobuyuki Idei, no dia da revelação. No dia da apresentação, a empresa mostrou o chip central Emotion Engine e decretou que todos os jogos do PSone seriam compatíveis com o PS2 – um feito nunca antes imaginado na indústria.
Na Electronic Entertainment Expo daquele ano, a Sony mostrou a máquina. Muitos outros detalhes técnicos foram disponibilizados, porém o console ainda não havia mostrado seu poder, pois aquela era apenas uma unidade para exibir qual era o design escolhido pela empresa. Mesmo assim, aquele 11 de maio de 99 entrou para a história dos videogames, pois a Sega estava mostrando o DreamCast funcionando e alguns jogos interessantíssimos, como Resident Evil: Code Veronica.
No entanto, a Sony não cumpriu suas promessas. O console não chegaria no mercado em 99. A empresa afirmou na época que alguns problemas técnicos atrasaram o lançamento do console, que ganhou uma nova data: 04 de março no Japão. Enquanto isso, no dia 09 de setembro a Sega colocou o DreamCast nos EUA custando US$ 199 – um preço salgado para a época. Depois das grandes vendas do aparelho na época das festas de fim de ano, os números começaram a baixar drasticamente.
Com a virada do milênio a Sony teve que colocar o seu plano em funcionamento. O preço do console era um temor, pois o preço de US$ 370 era considerado abusivo – e ainda assim era o aparelho de DVD mais barato do mercado. A nova tecnologia estava chegando e todos queriam ver o que ela poderia fazer para os filmes. No dia 04 de março, chega no Japão o PlayStation 2, porém a demanda era muito maior que a oferta.
Os sites como eBay tinham ofertas de PS2 por mais de US$ 2 mil. As lojas de Akihabara abriram à meia noite para começar as vendas, já os grandes magazines começaram o turno mais cedo, às 06 da manhã. Mas não adiantou. Às 10 da manhã nenhuma loja japonesa tinha o console. 1 milhão de consoles foram vendidos como água no deserto. O sucesso foi tanto que virou a principal notícia dos jornais e programas de televisão da terra do sol nascente. A empresa não esperava tamanho sucesso. Tanto que no final de março, foram vendidos 1,4 milhão de unidades do PlayStation 2 – somente porque a empresa não conseguiu produzir mais unidades para atender a demanda.
Quanto aos jogos do lançamento, nenhum deles era da própria Sony. A empresa conseguiu causar o alvoroço apenas ostentando o nome de sua marca. O marketing da retrocompatibilidade também causou efeito, pois muitos dos felizardos que levaram o console para casa não tinham adquirido jogos e esse seria o primeiro erro do console.
Acabando com o primeiro concorrente Os primeiros meses de venda do console no Japão foram marcados por filas de consumidores nas lojas. A Sony não conseguia atender a demanda – e isso era uma coisa boa. Porém os jogos do console não atendiam às expectativas dos consumidores. O PlayStation 2 tinha apenas promessas como Gran Turismo 3, Final Fantasy X e Devil May Cry.
Street Fighter Ex3, Ridge Racer V e Tekken Tag Tournament eram títulos que pareciam promissores, porém vários problemas, como gráficos cerrilhados, slowndown e texturas borradas manchavam a reputação do console. O único título de lançamento do console que se salvava era Kessen e mesmo assim ele não era um grande jogo. Os produtores começaram a colocar lenha na fogueira reclamando para sites como o GameSpy que o PS2 era um console muito mais complicado de trabalhar do o DreamCast.
O console da Sega mostrava cada vez mais games interessantes para o público japonês, principalmente os jogos de luta e baseados em anime, mas mesmo assim suas vendas não decolavam. A Sega não tinha mais lugar no mercado oriental e isso era visível. Foi então que ela tentou se focar nos EUA e Europa para tentar se manter no mercado.
Para piorar a vida da Sony, outros concorrentes começaram a pipocar. No dia 10 de março de 2000, Bill Gates anunciou que a Microsoft iria entrar no mercado de games com um novo console, o Xbox. No mesmo dia, Kaz Hirai, presidente da Sony CEA na época anunciou o preço americano do console: US$ 299. Ele disse também que algumas mudanças internas seriam feitas e avisou que apenas 1 milhão de consoles estariam nas prateleiras no dia do lançamento do PS2 americano.
Mas os problemas de fabricação do console foram mais uma vez a peça chave para o lançamento. Em setembro, Hirai disse que “apenas 500 mil unidades do PlayStation 2 chegarão aos EUA no primeiro dia. Depois disso a Sony CEA vai entregar às lojas 100 mil unidades todas as semanas, até que nossa produção se regularize”.
Em 26 de outubro daquele ano o PlayStation 2 chegou nos estados Unidos. Não era difícil ver pessoas saindo das lojas com um PS2 e um filme em DVD, mas o mesmo não acontecia com os games. E a lista de jogos de lançamento era muito melhor que a japonesa, como SSX e Madden NFL 2001 da Electronic Arts e Smuggler's Run e Midnight Club da Rockstar Games.
As coisas iam melhorando no ponto de vista dos jogos com o lançamento de Onimusha, Dark Cloud e The Bouncer (esse último recebeu críticas duras, mas fez sucesso no Japão), a Sony já iam mostrando a força do console. Mas era a hora de chegar ao terceiro mercado: o europeu. Se o dia de lançamento americano 500 mil unidades evaporaram, o que dizer das 200 mil que chegaram na Europa no dia 24 de novembro? Todos os consoles desapareceram na pré-venda e nem chegaram às lojas.
2001: uma odisséia de jogos O sucesso da Sony nos EUA e Europa atingiu a Sega em cheio. A dona de Sonic não conseguiu fechar um acordo com a Electronic Arts (que fazia na época quase 50% dos jogos americanos). Mesmo tendo uma biblioteca de jogos muito superior que o PlayStation 2, de repente o Dreamcast foi sendo deixado de lado. Até que a situação ficou insustentável e no dia 24 de janeiro de 2001 a Sega anunciou que sairia do mercado de consoles e se focaria em fazer apenas jogos.
Os primeiros grandes títulos começaram a aparecer em 2001, como Gran Turismo 3, Grand Theft Auto III e Metal Gear Solid 2: Sons of Liberty. Este último tem acumulado cerca de 9 milhões de cópias vendidas no mundo todo. No Japão, foi o lançamento de Final Fantasy X que deixou os jogadores de olho puxado felizes – que anos depois foi eleito pelos leitores da Famitsu como o melhor jogo de todos os tempos.
Durante a E3 desse ano, a Sony firmou parceria com a AOL e a RealNetworks para o mercado online do PS2. A internet naquela época estava crescendo e o advento do console da Microsoft, que já tinha esta funcionalidade embutida poderia representar um sério risco para a empresa. Mas o acessório do PS2 só foi surgir em 2002.
A chegada do Xbox e GameCube (15 e 18 de novembro, respectivamente) no mercado americano não afetaram os planos da Sony. Ambos venderam muito bem no lançamento, porém o crescimento não foi sustentado por muito tempo. O GameCube, foi muito melhor nos EUA do que no Japão, já o Xbox que teve uma alavancada no ocidente, mal foi percebido no oriente.
Os anos dourados O preço do PlayStation 2 continuava proibitivo para algumas camadas da sociedade e isso só foi mudar em 14 de maio com o anuncio de corte de preço do console, que passou ser vendido por US$199. Isso foi só o primeiro passo, pois no dia seguinte a Electronic Arts anunciou que seus jogos de esporte só teriam funcionalidade online no console da Sony.
Esse seria o próximo campo de batalha. A Xbox Live era um embrião na época e o Xbox já tinha tudo o que era necessário para se conectar online. Já o PlayStation 2 precisava de um acessório, o Network Adaptor. No início os jogos tinham a opção de ter ele na caixa, como foi o caso de SOCOM US Navy S.E.A.L.S.. Porém não foram todos os donos do PS2 que abraçaram a ideia de jogar online – exatamente o oposto dos donos do Xbox.
Foram os jogos as grandes estrelas desse ano. Grand Theft Auto: Vice City chegou arrebentando e vendeu 10 milhões de cópias. World Soccer Winning Eleven 6 Final Evolution foi o que deixou os brasileiros malucos pela série e Silent Hill 2: Restless Dreams deixou muitas pessoas sem dormir. A Square Soft lançava Kingdom Hearts que agradou os fãs de Final Fantasy e da Disney.
Em 2003 o PlayStation 2 alcança a marca de 50 milhões de consoles vendidos. A empresa revela também que mais de 500 mil adaptadores de rede foram abraçados pelos donos do console. Para melhorar a adesão online, a Sony anunciou que todos os PS2 vendidos à partir de 15 de março viriam acompanhados com um adaptador de rede e sem custo para o consumidor. Em resposta a Microsoft baixou o preço do Xbox para US$ 179.
Mais um acessório foi lançado para o console, o Eye Toy, uma câmera que colocava o jogador dentro dos games e que virou mania na Europa. Porém os jogos com pouco apelo visual e a câmera que não captava os movimentos corretamente fez com que os americanos e japoneses não se atraíssem para o produto. O resultado foi que em seis meses foram mais de 1 milhão de câmeras vendidas no velho mundo, enquanto somando os números dos EUA e Japão o resultado não passava dos 200 mil.
O ano foi sem muitas novidades estrondosas no campo do Hardware, mas nos jogos o PlayStation 2 continuava sendo a preferência de todos os mercados. Os gamos no Xbox e no GameCube eram visualmente mais bonitos, mas isso não impediu que Prince of Persia: The Sands of Time e SoulCalibur II vendessem quase que o triplo das duas plataformas unidas. A única exceção foi Tom Clancy's Splinter Cell que deixou as vendas do Xbox e PlayStation 2 praticamente empatadas.
Enquanto isso, a primeira continuação de um Final Fantasy foi duramente criticada. Final Fantasy X-2 foi tachado de “jogo para garotas” e “muito alegre”. Revistas especializadas aqui no Brasil também foram duras com ele, como no caso da EGM Brasil, na qual um dos avaliadores deu nota 5 para o jogo – o que causou a ira dos fãs.
No final de 2003 a Sony viu o primeiro declínio de vendas do console. Chegar à marca de 70 milhões de consoles em três anos de vida era um recorde para a empresa. Para tentar manter as vendas do console, a empresa fez um novo corte de preço, baixando para US$ 179. O mercado japonês ficou marcado pelas cores novas do console, como Prata e Vermelho.
O ano de 2004 seria marcado por três grandes notícias para o console, o anúncio do PlayStation 2 Slim, a redução de preço para US$ 149 e o lançamento de Grand Theft Auto: San Andreas, o jogo mais vendido da história do console com cerca de 17 milhões de unidades vendidas só na versão de PlayStation 2
O ano também foi recheado de jogos bons, como Metal Gear Solid 3: Snake Eater, Viewtiful Joe, Katamari Damacy, Onimusha 3: Demon Siege para citar poucos. Na Europa, depois de GTA: San Andreas, foi SingStar o jogo mais vendido. O Karaokê da Sony virou uma febre por lá e aproximou muitas pessoas que nunca jogavam videogames para a frente de uma televisão.
Todos esses fatores reunidos deram resultado. No final de 2004 o PlayStation 2 somava cerca de 95 milhões de consoles vendidos. Grande parte disso pela redução de preço e pela reformulação do console, além disso, foi um ano com Grand Theft Auto o título de uma empresa terceirizada que mais vendeu consoles.
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