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Análise: Bayonetta
19/01/2010 17:51 - Por Fernando Mucioli

Tem gente que joga videogame pelos gráficos. Tem gente que joga pela história. Alguns preferem um bom modo multiplayer e outros poderiam ficar simplesmente com o game pausado, ouvindo a trilha sonora. Mas alguns de nós não largam do controle simplesmente porque é um negócio divertido demais, que nenhum filme, CD ou livro faz igual. Foi pensando nessas pessoas que a Platinum Games lançou Bayonetta: um jogo que não tem medo de ser exagerado - nem de chocar, nem de ser machista e magoar moralistas de plantão, se é para nos fazer feliz.

Mas a receita desse sucesso passa longe das asas de morcego e olhos de cobra, apesar da presença de alucinógenos ser questionável. Pegue a ação, as armas e o sistema de luta maravilhosamente complexo de Devil May Cry e junte com o humor completamente nonsense de God Hand – tirando os chiuauas envenenados mas mantendo as strippers em trajes sumários. E é isso aí: o resultado que sai do caldeirão é um jogo que te faz passar da raiva às risadas num instante.

Hora do Espanto

Bayonetta é a última sobrevivente das Bruxas de Umbra, seita de mulheres praticantes das artes sombrias, que, junto com os Sábios de Lumen, protegiam o equilíbrio entre luz e trevas existente no mundo. Mas algo aconteceu, essa balança pendeu para um dos lados e uma guerra começou. Guiados pelos servos do Sol, as pessoas comuns se viraram contra as bruxas a promoveram uma caçada total. Elas foram todas dizimadas – menos uma, a nossa heroína. Séculos depois, na era atual, ela acorda de um sono profundo sem qualquer memória e terá de lutar contra um exército de anjos nada celestiais para descobrir a verdade sobre si mesma.

O novo jogo de Hideki Kamiya – mesmo diretor dos games já citados, além de Okami, Viewtiful Joe e Resident Evil 2 – copia tudo o que pode da saga de Dante, e não faz a menor questão de esconder. A aventura da bruxa de pernas longas é dividida em fases separadas, bem lineares mas com uma porção de tesouros escondidos – alguns bem, outros, nem tanto. Itens de aumentar vida? Tem. Aumentar “Devil Trigger”? Também. Isso sem contar os discos dourados de vinil que viram espingardas calibre 12, garras de fogo e raio e katanas gigantes.

As Secret Missions, tarefas escondidas que o filho de Sparda encontrava fuçando em portas já passadas e cantos escuros, também estão de volta sob um novo nome: Aflheim. A fórmula é a mesma, mas as tarefas parecem bem mais ingratas. Coisas que vão de derrotar um anjo gigante com seis socos e sete chutes ou enfrentar ondas de dezenas de monstros malvados que só podem ser derrotados durante o Witch Time – mais sobre isso, já, já. O nível de desafio nesses pequenos trabalhos é alto, e isso vale para todo o resto do jogo, ainda que os maiores momentos quero-jogar-esse-controle-na-parede fiquem por mesmo por aqui.

Lutar no universo de Bayonetta traz a mesma complexidade, profundidade e dificuldade que qualquer fã de jogos de ação – ou da Capcom – deveria esperar de outra cria do pai de Devil May Cry. Cada um dos monstros maravilhosamente construído e desfigurado pela Platinum representa um desafio singular, e a cada fase pelo menos um novo oponente é apresentado. E, com eles, novas armas para lidar com o desafio. Descobrir as fraquezas de cada um e desenvolver a melhor maneira de mandá-los de volta para o Inferno (ou, no caso, o Céu) faz com que o jogo nunca deixe de ser divertido.

O equipamento básico para os combates são dois pares de revólveres (um em cada mão e um em cada pé) e quanto mais variado for o uso deles, mais pontos se acumulam no final de cada Versículo – as subseções de cada fase. Um botão fica fixo nos disparos à distância, outro no soco e outro no chute. É curioso, aliás, que, diferente da antiga série de Kamiya, metralhar a uma distância segura parece um pouco mais útil, ainda que não seja suficiente para dar cabo nem do peão mais fraco.

Deliciosamente Cruel

Mas nem só de balas vive a bruxa. Com o avanço pelas fases ela ganha novos armamentos que podem ser equipados nas mãos ou nos pés, com efeitos diferentes em cada posição. Ainda é possível criar duas configurações de equipamento que podem ser trocados em tempo real, no meio da batalha. Ainda mais opções, ainda mais diversão.

Para quem não estiver se dando bem, a Platinum preparou modos automáticos de batalha: basta martelar qualquer botão para fazer combos complicados e alcançar uma vitória (quase) certa. Quase não é preciso andar. O modo ajuda, de fato, mas não dá aquela sensação pirotécnica de combos incríveis que o mesmo sistema tem em Devil May Cry 4.

Um dos grandes truques da feiticeira é o já mencionado Witch Time – um sistema simples, mas que faz toda a diferença. Quando a heroína se esquiva de um ataque na hora certa, o tempo começa a passar mais devagar para os inimigos, e aí é aproveitar esse tempo para descer a pancada sem ninguém para te incomodar. Desse jeito pode até parecer que o jogo é fácil demais – mas espere só a confusão começar a crescer para ver como é complicado passar sem nenhum arranhão.

Mas o outro feitiço da manga é o que ajuda a definir esse como um game único e completamente sem noção: os Torture Attacks. Ao acumular energia o suficiente, é possível “capturar” qualquer inimigo e executar um ataque especial que fatalmente arrancará boa parte da sua barra de vida. Mas não é qualquer ataque. É um ataque que amarra uma demônio/anjo/mulher seminua com correntes a um cavalo de brinquedo e a pune com chicotadas. Ou prende outro inimigo infeliz numa Dama de Ferro. Ou o esmaga com uma lápide.

As versões “grandes” desses ataques, usadas nos chefes, são os Climax Attacks. Nesse caso a destruição pode vir tanto na forma de um dragão ou um corvo demoníaco feitos inteiramente de cabelo ou um conjunto de braços que brinca de vôlei com o chefe antes de enchê-lo de bordoadas. Quem tem inspiração para inventar tudo isso?

Céu e Inferno

Esse é justamente um dos motivos pelos quais Bayonetta é o melhor jogo nada indicado para os fracos de coração. Você tem uma bruxa que enfrenta anjos monstruosos. Duelos de pole dancing e golpes especiais sado-maso. As falas são bregas, mas a dublagem e a naturalidade dos diálogos, nos quais os personagens tiram sarro uns dos outros o tempo inteiro, fazem tudo só beirar o ridículo – no bom sentido. São horas e horas de um pesadelo sem fim para quem leva videogames (e a si mesmo) a sério demais.

Um bom exemplo é uma das cenas de abertura: a heroína, vestida de freira, reza em frente a um túmulo. De repente surgem anjos assassinos de todos os lados, rasgando pedaços da sua roupa – e o que segue é uma sequência de transformação a la Sailor Moon ao som de um remix de Fly Me to The Moon, música que ficou famosa na voz de Frank Sinatra.

A própria Bayonetta já é uma protagonista incomum, feita aparentemente para preencher o maior número de fetiches possíveis de uma vez só. Além do sotaque britânico, o óculos e a roupa agarrada - que desaparece com a maior facilidade - há ainda as poses e os golpes. Lanças viram eixos para que ela dance em volta. Quedas de alturas mais elevadas rendem levantadas com direito a uma empinada nos glúteos. Isso sem contar os beijinhos ao fim de cada Versículo. Tudo faz tão pouco sentido que a única reação plausível é sorrir e continuar explodindo as penas alheias.

O espetáculo ainda é coroado por outras faixas da excelente trilha sonora, mas os destaques vão para as releituras dos temas de OutRun, After Burner e Space Harrier, clássicos perdidos da Sega.

Se algum dia existiu algum jogo “de fã para fã”, esse é Bayonetta – algo que você se divertirá tanto jogando quando Kamiya e os ex-Capcom se divertiram desenvolvendo. Faça um favor a si mesmo e se deixe envolver pela bruxaria.

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FICHA TECNICA
Bayonetta
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   Nota:
   
9
Número de jogadores:
1 Jogador

Desenvolvedor:
Platinum Games

Distribuidor:
Sega

Lançamento:
05/01/2010

ESRB:
Mature

Plataforma:
PS3, X360

Suporte:
ND

Genero:
Ação

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